A vida é mesmo efémera

Temos coisas que são centrais nas nossas vidas e, porque somos confrontados diariamente com elas, tornam-se banais e não perdemos muito tempo a pensar sobre elas. Em algumas circunstâncias, por uma questão de tempo mas, na maioria das vezes, porque esta reflexão se torna mesmo muito incómoda, chata e aborrecida, deixamos que elas passem ao lado.
Há duas semanas atrás, fui jantar num restaurante brasileiro que se deslocara propositadamente de Santa Catarina para as festas da Praia.
Na altura de pagar a conta, um senhor, na casa dos quarenta anos, muito bem disposto, veio falar comigo de forma muito espontânea e perguntou-me se eu era de Cabo Verde. Eu trazia uma t-shirt estampada com o nome de Cabo Verde e, prontamente, disse-lhe que sim e durante breves minutos trocamos algumas palavras. Enquanto conversávamos, fiquei a saber que ele estava a delirar com a hospitalidade dos terceirenses e que no próximo ano iria a Cabo Verde, país que sempre tivera muita curiosidade em conhecer. Já tinha isso planeado há já algum tempo, mas por causa do negócio do restaurante ainda não tinha tido possibilidade de fazê-lo.
Despedimo-nos de forma muito cordial e, no final da conversa, disse-lhe que espero poder cruzar-me com ele muito em breve em Cabo Verde. O tempo não deu para saber o nome dele e nem ele do meu.
Na quarta-feira, o senhor, com quem no dia anterior eu estivera a conversar, pôs-se a caminho da cidade de Angra para ir ver uma tourada. Morreu, de repente, pelo caminho. O senhor que veio à Praia com o seu restaurante para passar alguns dias, foi-se embora.
Claro que a morte é banal e acontece sem aviso. Mas, também, por causa da banalidade da morte, vale a pena (re) definirmos a forma como levamos a vida.
Em cada rua encontramos pessoas a falarem mal das outras de forma gratuita; as pessoas chateiam-se, brigam e ter amigos é uma tarefa, nos dias que correm, cada vez mais difícil. Estamos preocupados em ter, não a partilhar, a stressar por tudo e por nada, a entalar o vizinho de lado ao colega de trabalho e, de repente, a banalidade bate-nos à porta. Acabou tudo.
A propósito, há tempos, li algures uma história:
No Egipto, um amigo foi visitar um outro que mudara de casa. Quando chegou à casa nova, constatou que não havia mobiliário. Apenas uma cama, uma mesa e algumas cadeiras. Sabendo que o amigo era rico, perguntou-lhe, com algum espanto, o que é que se estava a passar?
O amigo, calmamente, respondeu-lhe: estou cá de passagem e quem está nessa condição não necessita de muita coisa.
Sem posições extremas, a grande banalidade desta vida é que estamos aqui de passagem e que a nossa vida é mesmo efémera. É tão efémera que incomoda, dói e caímos na tentação de levá-la como se ela fosse eterna. Estamos enganados.

Comentários

Anónimo disse…
Olá Paulo! O meu comentário não vai esta tua crónica mas para a de hoje. Não tem nada de parolo, bem pelo contrário e é uma observação muito pertinente. Se o médico não é racista, imagina se fosse. Infelizmente hoje em dia continua-se a assistir a este tipo de comentários sobre os negros. Acho que seria essencial falar mais e debater essa questão. Só assim esse preconceito irá desaparecer.
Paulo Mendes disse…
Obrigado pela opinião e concordância em relação ao tema.
É triste e chateia-me imenso falar sobre essas "merdices" qeu ainda muitas pessoas têm.
abraço

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