Trim, trim… Trim, trim




Estão a ver o tal anúncio em que aparece um tipo meio ensonado e com um ar de incrédulo, dando conta, de repente, no seu apartamento de três “frutonas”?(
o termo não é politicamente correcto mas é uma referência a Pinto da Costa, que foi constituído formalmente arguido no processo Apito Dourado, tendo como base uma escuta telefónica em que ele prometia muita fruta a alguns árbitros, em troca de favores desportivos)
Pois é. Enquanto esse anúncio nos faz acreditar que nas horas impróprias é possível aparecerem três fantásticas raparigas vindas de algum espaço mais ou menos estranho, pronunciando em coro o trim, trim…trim, trim, o nosso mundo vai tendo coisas muito sérias.
Na cerimónia do 10 de Junho, o Presidente da República apelou para a necessidade de mais e melhores medidas para os 5 milhões de emigrantes portugueses. A chamada de atenção é pertinente e torna-se pacífico aplaudi-la. Portugal deve passar de uma visão administrativa e saudosista com que se relaciona com a sua diáspora para um relacionamento mais pragmático e adaptado às novas realidades. No entanto, poucos dias depois, Portugal foi confrontado com as condições escravas em que muitos portugueses se encontram a trabalhar no estrangeiro. Na Islândia, um dos sindicatos denunciou que centenas de portugueses estavam a trabalhar nos túneis em condições desumanas, laborando mais de 14 horas e usufruindo de alimentação de péssima qualidade. Pouco dias depois, foi publicada uma reportagem num jornal nacional, fazendo referência às condições muito difíceis em que os emigrantes portugueses trabalham na Holanda. Para quem acompanha minimamente essas dinâmicas vê uma vez mais comprovada essa realidade da exploração da mão-de-obra migrante, em que, por acaso, desta vez recaiu sobre os portugueses. Temos, por isso, dentro da Europa situações laborais gritantes e incompatíveis com o ideal da sociedade que se quer construir.
Julgo, por isso, que a primeira coisa que vale a pena reafirmar para os mais distraídos, e que, de resto, a realidade actual tem vindo a confirmar, é que os migrantes não são os outros mas sim somos nós. Todos nós, enquanto povos, fomos, somos ou seremos um dia migrantes e, por isso, é aconselhável fazer da imigração um fenómeno que diz respeito a todos nós. Quando se trata (e não falo nos aspectos meramente discursivos, mas sim de coisas reais) de ver o migrante (aqui, na Holanda, na Islândia etc.) como um de nós, muitos problemas desaparecem ou, pelo menos, deixam de ter expressão.
A realidade diz-nos que uma determinada entidade patronal precisa de mão-de-obra e existe um trabalhador migrante disposto a vender a sua força de trabalho por “tuta e meia”. A entidade patronal (salvo honrosas excepções) fica com a alma satisfeita porque entra, erradamente, numa lógica de comparação com o país de origem do migrante, tendo mais ou menos este discurso: “ Bom, coitado, se no país dele ganhava 100 euros, aqui posso pagar-lhe o triplo que até lhe faço um grande favor”. Este é um discurso que não se passa somente nas áreas económicas onde tradicionalmente os migrantes trabalham (construção civil, restauração etc.), mas também em outras esferas de trabalho insuspeitas para a existência de tal raciocínio.
O próprio trabalhador imigrante, salvaguardando a pouca ou nenhuma capacidade negocial, é, igualmente, um agente passivo na reprodução dessa mesma exploração. É evidente que esta lógica de exploração não ganha outras proporções, por causa das leis laborais e de uma alguma fiscalização existente.
Entendo, porém, que uma das soluções passa por tratar a pessoa que não nasceu no país onde se encontra emigrado como um de nós e não como o outro. Defender o direito do trabalhador migrante é defender, necessariamente, o direito do trabalhador nacional.
Mas isso é o plano ideal, do género das raparigas estonteantes que aparecem em nossa casa, pronunciando em coro o triim, trim,… trim, trim, trim…A realidade é bem mais dura.
Publicado no Jornal Açoriano Oriental 14/06/2007

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