Açores e Cabo Verde: Um novo patamar de relacionamento


Cabo Verde e os Açores têm todas as condições para, a partir de agora entrarem num novo patamar de relacionamento. Existe vontade política, prevalecem afinidades muito objectivas entre os dois arquipélagos, bem como uma necessidade real de dar conteúdo a tal plataforma da Macaronésia que integra ainda as Canárias e a Madeira.Decorrentes da sua situação insular e arquipelágica, Cabo Verde e os Açores vivenciam os mesmos desafios, nomeadamente na necessidade de encontrarem plataformas de relacionamento sólidos, num mundo cada vez mais global onde os pequenos espaços têm forçosamente de descobrirem formas inovadoras de afirmação. É importante termos em mente que a globalização, não obstante ser um fenómeno que vem acompanhando as sociedades desde os tempos mais remotos, assume hoje novos contornos e novas dinâmicas, em que os grandes países tendem a criar blocos e plataformas económicas com vista a maximizarem as potencialidades que essa mesma mundialização económica oferece. Nesse jogo complexo de inter-dependência entre países e povos, os pequenos países e regiões devem encontrar o seu espaço e para o caso de Cabo Verde e os Açores, a área natural é a da Macaronésia..Os Açores deram um salto fantástico nos últimos dez anos e pelo facto de deixarem se ser uma região de emigração para se assumirem como um espaço de acolhimento de imigrantes, constitui um bom indicador deste processo de desenvolvimento. Mas também Cabo Verde de hoje não tem nada ver com o de há 10 anos atrás. Apesar de ainda subsistirem problemas complexos, o percurso que o país trilhou é motivo de orgulho de todos os Cabo-verdianos e de reconhecimento em todas as instâncias internacionais.Por isso, existe para já, um consenso político na premência para o aprofundamento das relações entre os dois arquipélagos, sendo que a preocupação agora é operacionalizar essa vontade e reforçar as áreas prioritárias de cooperação.Em 1999, aquando da visita do Presidente do Governo Regional a Cabo Verde, foi celebrado um ambicioso protocolo de cooperação entre os dois governos, envolvendo um conjunto áreas, como as pescas, formação profissional, protecção civil, turismo, etc. O facto é que passado oito anos não foram dados, infelizmente, passos concretos para o cumprimento deste protocolo.Uma boa base de cooperação é o conhecimento mútuo entre os actores envolvidos. Neste sentido, a realização anual de por, exemplo, de semana cultural dos Açores em Cabo Verde (também ao contrário) era uma ideia ser explorada.A nível económico, e tendo em conta, por um lado, a inegável potencialidade de Cabo Verde no turismo e, por outro, do desenvolvimento deste sector nos Açores, seria interessante que o tecido empresarial açoriano pudesse pensar da internacionalização das suas empresas, sendo que Cabo Verde pode ser esse palco de arranque.Os Açores têm tido uma experiência muito boa no campo das energias renováveis e se tivermos em atenção que Cabo Verde tem condições análogas, faz todo o sentido que a transferência desse know how possa emergir como umas das prioridades na cooperação entre dois arquipélagos. A nível educacional, nomeadamente, no ensino universitário já houve uma dinâmica bastante interessante que importa recuperar, possibilitando, a circulação de docentes e alunos dos dois sentidos mas, sobretudo, convergindo sinergias para a produção de conhecimentos científicos sobre as realidades insulares.Por último, Cabo Verde tem a intenção de conseguir um estatuto especial junto da EU e não tenho dúvida que, também, nesta matéria, os Açores podem ser um genuíno parceiro neste processo.

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