A novela com o diploma do Sócrates num país dos doutores e engenheiros



Os portugueses têm a mania dos títulos. Já presenciei, em algumas ocasiões, pessoas que ficaram absolutamente aborrecidas porque não foram tratadas por “Senhor Dr.”. Por outro lado, tenho a percepção que muitas pessoas já foram confrontadas com mudanças de atitudes quando o seu interlocutor descobre que afinal o indivíduo é um “Senhor Dr.”. Mesmo com a democratização no acesso às universidades e com a relativa banalidade da licenciatura, continua-se a alimentar os títulos. Ter, actualmente, uma licenciatura constitui mais um instrumento que as pessoas têm a sua disposição para o seu enriquecimento pessoal e um factor potenciador para a entrada no mercado de trabalho. Nada mais do que isso.
Esse breve enquadramento sobre mania dos portugueses com os títulos académicos, relaciona-se com a miserável polémica que se instalou no país em torno da licenciatura do primeiro-ministro. O país ficou quase que suspenso para saber se o José Sócrates era, de facto, engenheiro. A polémica fazia todo o sentido se, para o exercício do cargo do primeiro-ministro fosse exigível uma licenciatura em Engenharia ou, se ainda, o primeiro-ministro tivesse dito que se tinha formado, por exemplo, na Universidade de Oxford ou numa instituição semelhante. O país sempre soube que o homem formara na Universidade Independente. Isso tudo para dizer que se o primeiro-ministro é engenheiro ou não, é algo completamente secundário e politicamente irrelevante.
No entanto, o primeiro-ministro foi obrigado a apresentar os documentos e os recibos das propinas para atestarem que, efectivamente, andou nos bancos da universidade. Ainda bem que o primeiro-ministro é um homem organizado e guardou os recibos das propinas. Se fizesse parte do grupo de pessoas que não guarda essas coisas, ainda vinha alguém dizer que o primeiro-ministro teve a isenção das propinas.
Enquanto o país fica distraído com essas coisitas, algumas questões que são importantes, actualmente, ficam sem respostas ou pelo menos, com respostas duvidosas. Lembro, por exemplo, do caso da aeroporto da Ota em que ainda estou para perceber (como eu estão seguramente muitas almas) se é de facto a melhor opção construir um novo aeroporto ou não. Em vez do primeiro-ministro andar preocupado com a real governação do país andou em casa de pantufas e pijamas a vasculhar os arquivos para encontrar os recibos das propinas do tempo da universidade.
A par disso, a única questão que poderia merecer alguma preocupação era saber se a Universidade Independente foi favorecida em algum momento, ou então se a Universidade de alguma forma teve ou tem algum esquema de favorecimento para este ou aquele aluno.
Essa absurda polémica poderá ter ainda uma segunda leitura. Lembro que há coisa de dois meses foi publicada, num semanário nacional, uma extensa reportagem sobre o José Sócrates com o sugestivo título “nascido para o poder”, demonstrando, de entre outras coisas, uma excessiva personalização para quem, hoje, exerce a política. A análise política centrada abusivamente na personalidade do líder é um pau de dois bicos. Por um lado, serve para valorizar em demasia um líder por razões completamente secundárias e não pelo conteúdo ou pelos resultados das suas acções políticas. Por outro lado, são essas mesmas razões secundárias que servem para destroçar um líder político, relegando para o segundo plano as coisas que deveriam servir como elementos de avaliação.
O certo que a explicação já foi dada e, na minha perspectiva, serviu para esclarecer as dúvidas.
Vamos lá ver, no entanto, se esse lamentável episódio será esquecido ou poderá constituir o começo do fim de estado de graça do José Sócrates. Oxalá que a última hipótese não se concretize.

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