Gestão das expetativas

1. Acho que todos nós, num determinado momento das nossas vidas, somos invadidos por aquela sensação estúpida de que o tempo está a andar mais depressa do que é suposto. O acontecimento mais relevante de 2013 foi, inquestionavelmente, a morte de Nelson Mandela. A propósito, no outro dia, partilharam comigo um grande ensinamento dado por ele. Questionou um jornalista, depois deste o ter entrevistado, qual a coisa mais importante que ele tivera na vida. A pergunta tinha apanhado de surpresa o jornalista e depois de alguns segundos de indecisão, Nelson Mandela interrompeu-o, dando ele próprio a resposta: “ o recurso mais importante que nós temos é o tempo. O tempo é limitado e esgota-se sempre. Por isso, é um recurso que deve ser utilizado da melhor forma possível”. Mandela continuou, reiterando que por entender que o tempo é a coisa mais importante que temos na vida, faz sempre questão de ser pontual e de não deixar que ninguém fique à sua espera. Se eu não respeito o recurso mais precioso das pessoas não preciso respeitar mais nada, concluiu. Neste sentido, o meu primeiro desejo para 2014 é que possamos, todos, ter mais tempo: tempo para trabalhar mas, também, para fazer o que mais gostamos e que nos dá mais prazer. Todos os dados que dispomos apontam claramente para um agravamento da situação social e económica do país e, num contexto que o governo anda a tirar cada vez mais tempo às pessoas, ter tempo pode vir a ser um luxo. 2. O meu segundo desejo: possibilitar, coletivamente, a criação de condições para a emergência de um novo patamar de expetativas em Portugal. Utilizo o termo “coletivo” de propósito, por não acreditar que o poder político – sozinho – consiga contrariar esta descrença que paira junto de esmagadora maioria da população portuguesa. É necessário um verdadeiro envolvimento de todos. A descrença e a perda de esperança são sentimentos não quantificáveis e, por isso mesmo, não entram muito em linha de conta no desenho de políticas públicas. Foi tornado público, há pouco dias, um estudo europeu que procura perceber como a crise tem afectado as migrações e a mobilidade no espaço comunitário em geral e, em particular, na Irlanda, na Grécia, na Itália, na Espanha e em Portugal. Por cá, 51,9% das 3322 pessoas que responderam ao que acabou por ser um “inquérito à emigração qualificada portuguesa” disseram terem saído por “não ver futuro” para si em Portugal. Muitos invocaram má inserção no mercado laboral: 20,6% estavam desempregados, 27,9% empregados sem vislumbre de progressão, 19,2% empregados com salário baixo. Já o disse anteriormente, mas vale a pena sublinhar esta ideia: quando a emigração acontece num contexto de ausência de oportunidades no espaço de origem e numa lógica de descrença absoluta, estamos a um passo para arrebentar com uma geração. Espero ardentemente que possamos reinventar as expectativas e de criar um sentimento de esperança de que Portugal possa vir a oferecer condições para a valorização pessoal e profissional para os seus cidadãos; 3. O terceiro desejo tem a ver a necessidade de reinventar a cidadania. As novas tecnologias (nomeadamente as redes sociais) vieram criar as condições para a emergência de uma falsa cidadania. Pensamos que basta colocar “ um gosto” ou de partilharmos um comentário e já estamos a exercer uma cidadania ativa. Nada mais falso. O momento complicado que estamos a viver obriga-nos a perceber que muitos problemas que estamos a atravessar resultam, inequivocamente, de opções políticas e da ideia de uma determinada tipologia da sociedade em que os prejuízos são democratizados mas os privilégios são para uma minoria. O ano de 2014, precisa de cidadãos mais ativos e empenhados na definição das opções políticas. 4. Para que tudo isso possa acontecer temos de ter, pelo menos, duas coisas: saúde e uma vontade enorme de sermos os capitães dos nossos destinos. Um feliz 2014 para todos.

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