Obrigado ao Zeca Medeiros

Começo estas linhas com uma pergunta simples e que converge com a própria simplicidade do Zeca Medeiros. Porquê prestar homenagem ao Zeca Medeiros e porquê fazê-lo no âmbito de um festival de cinema promovido por uma associação de imigrantes, cujo tema são as migrações e o diálogo intercultural? Respondo a esta pergunta, desafiando-vos a realizarem uma viagem: uma viagem para um espaço geográfico em que não existiriam estes homens e mulheres; homens de e da Cultura, como o Zeca Medeiros. Imaginemos como seria um povo sem os seus poetas, sem aqueles homens e mulheres que, brincando com as palavras, auxiliam-nos a construir o nosso imaginário individual e colectivo e, simultâneo, desafiam-nos a encarar as nossas próprias limitações e a valorizar as nossas virtudes. Imaginemos um povo e uma cultura desprovidos de homens e mulheres que tomando - muitas vezes por empréstimo - a simplicidade das vivências do quotidiano, cantam-na, despertando em nós o medo, o desespero, a coragem, os anseios, ou ainda uma coisa que, hoje, precisamos como de pão para a boca: a esperança. Pensemos ainda num espaço geográfico sem aqueles homens e mulheres que, através das mais variadas expressões artísticas, nos fazem sonhar, ora mostrando-nos a realidade de forma nua e crua ora, ampliando esta mesma realidade, mas nunca perdendo o sentido de nos ajudarem a descobrir a nós próprios, a criar e refazer permanentemente as nossas bases identitárias. O que o Zeca Medeiros fez ao longo destes anos foi nos ter proporcionado uma intensa viagem a todos: açorianos de nascimento, os novos açorianos, açorianos de coração e qualquer cidadão do mundo, a conhecer, a entender, a compreender e vivenciar a açorianidade. Ao longo da história dos Açores, as migrações estiveram sempre presentes; aquela procura incessante do deslumbramento das Américas, muitas vezes vivido sem sair destas nove ilhas, fez e faz parte da identidade açoriana e o Zeca Medeiros, através da produção cinematográfica, da escrita, das inúmeras interpretações sempre tentou, com o seu olhar, mostrar aos próprios açorianos de nascimento e ao mundo o que é ser açoriano. Saber quem somos, o que fomos, o que nos define enquanto povo, é um exercício e condição essencial para nos relacionar com o aparentemente estranho e saber recebê-lo com respeito e dignidade. Mas, também, um povo que não reconhece os seus valores, que não consegue reconhecer (de forma genuína) o trabalho e o contributo imenso que tantos e tantos homens e mulheres prestam para a sua valorização e enriquecimento, é um povo com um futuro frágil e seriamente comprometido. Nestes dias nebulosos e de incertezas, e nas vésperas da celebração dos valores de Abril, precisamos de valorizar o nosso passado e acreditar, por consequência, que temos condições e obrigação de empenharmos individualmente na construção de um futuro melhor. Existe um longo caminho já percorrido atrás de nós e desprezar este passado é um erro tremendo. Por isso, foi um privilégio e um orgulho enorme, enquanto, associação de imigrantes, cuja missão é contribuir para a integração dos tais novos açorianos, ter tido a possibilidade de prestar esta homenagem que, assente na simplicidade que o este ato insere, pretende tão-somente pode dizer ao Zeca Medeiros o nosso MUITO OBRIGADO, pelo seu papel relevante na (re) construção da identidade açoriana de qual orgulhamo-nos, também, de pertencer. Queremos, igualmente, através do Zeca Medeiros, homenagear os Açores e as suas gentes que, nas nove ilhas dos Açores e na diáspora, vivem e reforçam a cultura açoriana e nos permite, a todos aqueles que deixaram as suas terras de origem, a serem parte integrante destas nove ilhas sentadas, como escreveu o poeta, no meio do oceano atlântico. Como o próprio Zeca Medeiros disse, citando Natália Correia: “Sem memória não há pensamento, sem pensamento não há ideias, e sem ideias não há futuro”.

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