Os coveiros do susbdesenvolvimento

“Não podemos tratar os portugueses à bruta”. A expressão não é minha, foi utilizada pelo actual primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, em Agosto de 2010, na “Grande Entrevista”, onde então acusou o chefe de governo (um senhor chamado Sócrates) da subida de impostos. Sugiro, pois, que Passos Coelho contrate um assessor (penso que ainda há dinheiro para isso) para reler os vários discursos e intervenções feitas antes de ganhar as eleições, no sentido de ajudá-lo a ele e aos seus ministros a posicionarem-se relativamente ao estado da economia portuguesa e aos vários caminhos possíveis, para além de “tratar os portugueses à bruta”. Aliás, este tratamento à bruta que o actual executivo está a impor aos portugueses revela uma coisa que se tornou lugar-comum: quando os políticos estão na oposição dizem uma coisa mas, quando são eleitos, assumem uma posição exactamente contrária. Apesar da banalidade desta afirmação, este comportamento corrompe a já debilitada relação dos governantes com os governados. É do conhecimento de todos que a situação do país é débil e que são necessárias medidas austeras para a resolução dos problemas das contas públicas. Porém, durante o período eleitoral, o candidato a primeiro-ministro disse que concretizar uma subida de impostos seria “tratar os portugueses à bruta”; quando eleito, uma das suas primeiras medidas foi cortar o subsídio de natal de 2012, reiterando tratar-se de uma medida de excepção. Poucos meses depois, esta medida de excepção tende a virar norma, o que me leva a pensar que quem agora governa não conhecia o verdadeiro estado do país (e revela, por isso, sinais de impreparação) ou pensa que o eleitorado é tolo e merece mesmo ser tratado à bruta. Eu não quero ser treinador de bancada e quero acreditar que os responsáveis políticos dão o seu máximo para resolverem os problemas do país. Mas a situação é muito grave para ficar apenas nas mãos dos políticos e é preciso exigir a todos um esforço adicional para encontrar as melhores alternativas. Esta crise que o país está a atravessar pode ser comparada a uma guerra. Em qualquer combate, são alistados os mais aptos, os jovens e os velhos são poupados. A analogia é feita por Boaventura de Sousa Santos, num excelente artigo publicado num semanário, no qual chama a atenção, face ao actual contexto, para o perigo do subdesenvolvimento. À semelhança de uma guerra, também numa crise económica devem ser os mais aptos a serem chamados para dar o seu contributo. Neste caso, os mais aptos são as pessoas com mais dinheiro e é a estes que se devia exigir maiores sacrifícios, até porque muitos enriqueceram com um forte impulso dos dinheiros públicos. É evidente que se impõe, para o desenvolvimento do país, a existência de um tecido empresarial forte e com capacidade financeira, mas as actuais medidas, que recaem essencialmente sobre os que pouco têm e sobre os remediados, são um forte impulso para o empobrecimento do país. Há uma outra questão que, embora simbólica, não deixa de ser interessante: as pessoas que tomam estas medidas, há muito que perderam a ligação com o Portugal real e não sabem, ou já se esqueceram, o que é fazer ginástica para tentar pagar as contas todas no final do mês. Segundo dados recentes, Portugal apresenta um sinal claro de subdesenvolvimento: a disparidade entre ricos e pobres. No contexto europeu, Portugal é o país com maiores desigualdades e um estudo recente da Fundação de Francisco Manuel dos Santos veio confirmar que 5% dos mais ricos da população portuguesa ganham 18 vezes mais rendimentos do que os 5% mais pobres. Por isso, o actual grau de sacrifício a que se está a obrigar os portugueses faz deste governo um coveiro do país, um gerador de mais e maiores assimetrias sociais e, portanto, de subdesenvolvimento.

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