As contradições da Mobilidade

Quando terminei a faculdade resolvi com um amigo comprar um bilhete de dois meses na empresa europeia “ Eurolines” e, de mochila às costas, fui tentar conhecer a Europa, essa mesma Europa que ao que tudo indica está numa encruzilhada cuja saída não se prevê nem rápida e muito menos fácil. Sem destino traçado com um grande espaço temporal, o rumo das viagens ia acontecendo à medida que íamos na direcção do sul para o norte da Europa. É através de meios de transportes terrestres que muitos imigrantes indocumentados saltitam para dentro do espaço comunitário com o propósito de conseguirem algum refúgio, possibilidade de trabalho e melhores condições de vida. Nas dezenas de viagens de autocarro ia conhecendo, com a mesma velocidade que ia tocando nas diferentes cidades europeias, imigrantes de países prováveis e improváveis. Para muitos desses imigrantes, eu também era um imigrante de um país improvável que muitos nunca tinham ouvido falar na vida. Muitos nunca tinham ouvido falar em nenhum dos meus dois arquipélagos. Muitos desses homens e mulheres partilhavam uma angústia e um sonho comum. A angústia por estarem indocumentados e o sonho de conseguirem chegar a Paris, Bruxelas, Estocolmo e Berlim. Muitas vezes a angústia cedia e o sonho era interrompido pelas vozes das autoridades que de forma aparentemente aleatória solicitavam os documentos nos postos de controlo. Lembro-me de conhecer dois jovens marroquinos que pretendiam ir ter com uns primos a Bruxelas. Embarcaram em Barcelona mas a viagem deles terminou em Milão. De regresso a Estocolmo fui “apanhado” em Hamburgo, na Alemanha, na tal aleatoriedade no controlo dos documentos. A agente alemã teimou que a minha autorização de residência não me permitia circular livremente no espaço Schengen, obrigou-me a interromper a minha viagem e foi só com a intervenção do seu superior que me permitiu concluir a minha viagem de mochila às costas.

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