Tretas do costume

Passado pouco mais de um mês após a tomada de posse do novo Governo, ficamos a saber que afinal o que é dito durante a campanha não é para levar a sério. Para ser mais rigoroso, tivemos mais uma confirmação. Quando os políticos estão na oposição e fazem críticas assertivas e contundentes, somos preenchidos por uma brisa de esperança de que se estivessem no poder fariam diferente. Resumindo: é tudo treta. Vou dar dois exemplos. Enquanto oposição, o CDS-PP fez um excelente trabalho e divulgou nas redes sociais um levantamento sobre a remuneração dos gestores de empresas de capitais públicos, criticando os salários obscenos dos tais gestores e propondo que o salário do Presidente da República servisse de referencial. Aliás, no dia 18/11/2010, Paulo Portas disse: “Alguma coisa está mal quando o presidente da TAP ganha tanto ou mais do que o Presidente dos Estados Unidos, quando o governador do Banco de Portugal ganha tanto ou mais do que o presidente da Reserva Federal”. Agora que o CDS-PP está no poder, para além de não abordar o tema das remunerações obscenas (na maioria são empresas que estão no mercado em regime de monopólio, o que significa que geri-las não é nada de transcendente), chamou, em conjunto com PSD, os respectivos “amigos” para o conselho de administração, neste caso, da CGD. Passos Coelho, durante a campanha, rejeitou o aumento dos impostos. No entanto, depois de eleito, uma das primeiras medidas foi aplicar um imposto extraordinário sobre 50 por cento do subsídio de Natal, independentemente do salário auferido (exceptuando os casos abaixo do salário mínimo). Nada contra os ‘boys’, mas o que é lamentável é que os partidos durante a oposição tenham um discurso e, quando chegam ao poder, mudem simplesmente de protagonistas. É lugar-comum dizer-se isso mas a credibilidade da política em Portugal passa por alterar comportamentos e atitudes óbvias. A começar pela coerência. Como o Verão é propício à leitura, recomendo aos políticos, e em especial aos que estão no poder, que releiam as suas propostas e opiniões do tempo em que estavam na oposição. 2 Os governantes deviam, de vez em quando, utilizar o transporte público que subiu agora 15%, ou seja, 6 vezes mais do que a inflação. Não é justo, e para uma pessoa que ganha o salário mínimo, ou perto disso, esses aumentos têm um forte impacto no orçamento familiar; o acumular destas medidas concorre para a desmotivação de quem trabalha e tem de utilizar transportes públicos.
Publicado no Açoriano Oriental, no dia 03/08/2011

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Cabo Verde, um percurso de esperança

Slow Ferry e o enguiço do Estado

A lei dos mais fortes...Conhecem um tal Abreu Freire?