A legitimidade ( ou não) da abstenção

Portugal irá a votos no próximo dia 23 de Janeiro e, por isso, junto o meu apelo ao de tantos outros para a necessária participação das pessoas neste processo eleitoral. Cada um de nós tem as suas convicções, mas ninguém devia deixar de exercer o seu direito cívico. As razões são muitas. A primeira delas tem a ver com a situação crítica em que o país se encontra, em que é necessário responsabilizar os políticos pelas (não) opções, mas também responsabilizar as pessoas pelas escolhas que fazem. Podemos fazer variadas e legítimas críticas à democracia, aos seus contornos e protagonistas. Porém, não podemos esquecer que nós, os cidadãos, temos por força do contexto democrático um conjunto de instrumentos à nossa disposição para alterar o rumo das coisas. Não podemos fingir que eles não existem e, mais grave ainda, não podemos desresponsabilizarmo-nos pelo estado caótico em que o país se encontra. Somos, enquanto governados, parte do problema e, por consequência, temos de ser parte integrante da solução. Este argumento ganha maior pertinência quando olhamos à nossa volta, para outras latitudes, em que as pessoas não são livres para escolher os seus governantes e caminho que pretendem seguir. O último exemplo veio há poucas semanas da Tunísia, um país que era considerado, até então, como um dos mais estáveis do norte de África e um modelo regional. Ben Ali governou o país com mão de ferro durante 23 anos, depois de chegar ao poder através de um sangrento golpe de Estado. De repente, e com o agudizar dos problemas e a ausência de alternativas, o povo “passou-se”. Ben Ali não teve outra alternativa senão pedir asilo e, depois da recusa de alguns países ocidentais amigos, foi amparado pela Arábia Saudita. Não quero comparar, de todo, a situação na Tunísia com a realidade portuguesa, mas a mensagem está lá. As últimas eleições não nos dão motivos de esperança em relação à diminuição da abstenção. Vou voltar à situação do país e, muito em especial, aos jovens que são quem está a pagar esta crise de forma mais violenta; só não atinge proporções mais alarmantes muito por causa da solidariedade inter-geracional que vai existindo na sociedade portuguesa e na açoriana, em particular. O desemprego, tanto no contexto nacional como regional, não pára de aumentar, com a particularidade desta subida ser mais intensa junto dos jovens licenciados. Na região, apesar do crescimento do desemprego ser pouco expressivo, temos de ficar atentos à subida galopante do número de desempregados qualificados no próximo mês de Março, altura em que muitos terminam o programa Estagiar L. Mas muitos que trabalham, fazem-no em condições precárias e, apesar de acreditar que em muitos casos prevalece a má vontade de entidade patronais, há casos em que simplesmente não é possível ser de outra forma. Estes exemplos servem para fundamentar a necessidade de participarmos activamente e não nos alienarmos das nossas próprias responsabilidades enquanto cidadãos porque, no caso de correr mal, pagamos (estamos a pagar) uma factura pesada. Por isso, a minha escolha recai sobre Manuel Alegre. Pelo perfil humanista e de líder das expectativas do povo português; pela capacidade de construir pontes e consensos em torno dos grandes e complexos desafios que Portugal tem pela frente e, sobretudo, pela sua capacidade em estimular o que há de melhor em cada um de nós e colocá-lo ao serviço do país. A abstenção mina qualquer sistema democrático e constitui uma desresponsabilização colectiva e pode colocar em causa a própria legitimidade das opções políticas. Não deixe de votar no dia 23.

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