Sou um macaronésico

Irá ter lugar nos dias 11 e 12 de Dezembro, na inspiradora cidade do Mindelo, em Cabo Verde, a Cimeira da Macaronésia onde se prevê a criação da Região da Macaronésia que, como todos sabem, engloba os arquipélagos dos Açores, Cabo Verde, Canárias e Madeira, sendo que Cabo Verde é o único que não pertence à União Europeia. Aliás, reside aí uma das grandes mais-valias da criação política ou, se quisermos, da existência de um enquadramento da Região da Macaronésia. Face ao enquadramento no espaço europeu, Açores, Madeira e Canárias, enquanto regiões autónomas, têm desenvolvido, ao longo dos últimos anos, uma relação muito intensa, com recurso a vários projectos comunitários direccionados para as regiões ultraperiféricas. Aliás, é banal afirmar que, graças ao estatuto de regiões periféricas, os três arquipélagos, mesmo apresentando dimensões e níveis de crescimento díspares, beneficiaram de grandes fundos estruturais, os quais ajudaram a minimizar o hiato de desenvolvimento face às outras regiões europeias. Isso significa duas coisas. Primeiro que existe um espaço óbvio e natural no relacionamento entre os três arquipélagos. Segundo, que é mais consequente um processo de pressão assente em problemas específicos decorrentes da descontinuidade territorial e da posição periférica que ocupam, pelo menos, geograficamente. Neste contexto, o actual governo de Cabo Verde teve uma visão estratégica ao impulsionar, com o apoio dos restantes arquipélagos, a criação da Região da Macaronésia, dando consistência política à posição geográfica que ocupa enquanto espaço privilegiado no diálogo entre a Europa e África. Devo dizer, todavia, que este posicionamento já deveria ter sido implementado há muito mais tempo. A integração de Cabo Verde na Europa é uma discussão inconsequente e nem constitui ambição dos dirigentes cabo-verdianos. Aliás, Cabo Verde só terá peso no panorama internacional se conseguir ser activo no contexto africano e, ao mesmo tempo, se conseguir tirar partido da sua proximidade à Europa, nomeadamente, através do espaço da Macaronésia. Por outras palavras e de forma a sossegar os espíritos mais duvidosos, a política externa de Cabo Verde deve ser alicerçada, por um lado, numa acção forte e permanente na integração da sub-região africana da CEDEAO e, por outro, no aprofundamento das relações com a Europa através da Macaronésia. Não podemos perspectivar o futuro de Cabo Verde sem esta visão de integração dupla, isto é, numa relação intensa com África e Europa, estratégia esta que mais não irá fazer do que potenciar o reencontro consigo próprio. No âmbito Europeu, existem variadíssimos instrumentos que, perante uma relação política assumida de Cabo Verde e de um enquadramento legal com os demais arquipélagos parceiros, poderão ser extensíveis a Cabo Verde. A questão contrária é o que é que os restantes arquipélagos podem ganhar, nomeadamente, os Açores com a criação da Região da Macaronésia? Podem ganhar muito e o facto de estarmos a falar de um mercado de quase três milhões de pessoas em pleno Oceano Atlântico já é um estímulo. Por isso, tenho a mais profunda convicção de que é chegada a hora de dar consistência política às afinidades existentes entre os quatro arquipélagos, criando um espaço económico no centro do Atlântico e uma autêntica ponte entre África e a Europa. O poder político deve dar este passo e estou convencido que seguir-se-ão acções concretas das populações dos quatro arquipélagos que saberão potenciar e tirar os legítimos dividendos do espaço da Macaronésia. Todos conhecem estas regiões europeias como periféricas. A criação do Espaço da Macaronésia poderá ser fundamental na construção de novas centralidades atlânticas, sendo que esta ambição não é uma miragem. As centralidades são construídas e trabalhadas, não resultam de nenhuma predestinação.

Comentários

Anónimo disse…
Agora so falta dizeres que Cabo verde é europa... se calhar de fosse europa já la estavam muitos dos subsidiodependentes que por ai andam... espertalhoes que falam falam, mas querem é o seu tacho. tas-te marimbando pros irmãos cabo verdianos... queres é taxo

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