Estamos vivos

Não é novidade para ninguém que Portugal está a viver tempos muito
difíceis e mesmo os mais optimistas dificilmente estão a conseguir
perspectivar um futuro muito melhor. Estamos num país que ainda tem
...níveis de instrução inferiores à média europeia mas que se confronta,
paradoxalmente, com o crescimento de licenciados desempregados
revelando, entre outras coisas, a inadequação do mercado face ao sistema
de ensino. Estamos a falar de um Portugal que precisa urgentemente de
formar com qualidade e de criar cidadãos que se preocupam com os
destinos colectivos para contrariarem a tendência crescente da alienação
e da responsabilização excessiva do Estado para tudo e para todos. O
país que ontem celebrou os 100 anos da República progrediu e melhorou,
inquestionavelmente, em muitos aspectos. Entrou na Europa, massificou o
ensino, a democracia e a liberdade são valores intocáveis; em conjunto
com outros países criou o espaço lusófono e contribuiu para a própria
afirmação da língua portuguesa; um país que há décadas atrás obrigou
muitos dos seus filhos a emigrar para outras latitudes para conseguirem
uma vida digna. É este mesmo país que, hoje, acolhe mais de meio milhão
de imigrantes e que apesar de muitos problemas de integração as coisas
têm evoluído, pelo menos em comparação com outros países europeus. Mas
também é o mesmo país que criou expectativas nas gerações mais novas e
que hoje não consegue dar respostas de esperança de que coisas irão
melhorar no futuro. É o mesmo país que criou expectativas de um Estado
Social justo mas que fazendo as contas básicas sobre a situação
económica e demográfica percebe-se, claramente, que estas expectativas
mais tarde ou mais cedo serão terrivelmente defraudadas. Um país com
cada vez menos população e que a longo prazo, mantendo o actual cenário,
irá enfrentar problemas sérios com o sistema de segurança social e a
população activa para algumas actividades económicas. Agora acredito que
os portugueses têm de confiar mais no país que têm. Com os seus
problemas e com os seus protagonistas. É hora de alterarmos o peso dos
treinadores de bancada e de críticos silenciosos para que, em conjunto,
se encontrem as melhores alternativas de governação e de políticas. É
perante as situações de crise que acabamos por perceber, claramente, que
as opções políticas mexem com o nosso bem-estar e interferem com as
opções individuais. Por isso, a racionalidade nos diz que vale a pena
preocuparmo-nos com as escolhas de quem nos governa e o que pretendem
fazer. Mas também estamos a falar de um país que prometeu igualdade de
oportunidades para todos mas que perante uma leitura atenta dos dados
percebemos claramente da crescente disparidade na distribuição dos
rendimentos, minando, por isso, os alicerces de um país justo e
colocando na difícil teia de vulnerabilidade e pobreza cada vez mais
pessoas. Todos falam de uma visão de longo prazo para o país e de
desenho e concretização de políticas que assentam numa visão estratégica
de desenvolvimento. Quando olhamos para a prática quotidiana de
actuação política percebemos fatalmente que ela atende quase que
exclusivamente às necessidades imediatas e eleitoralistas. Perante a
ausência de mobilização colectiva para os grandes desígnios, as decisões
estruturais são raramente concretizadas e ficamos todos a navegar à
vista. Por isso, tenho a convicção de que o país precisa de uma
autêntica mobilização colectiva e de uma forte dose de esperança de que
os portugueses são capazes de ultrapassar este momento difícil. Num
quadro de previsões dramáticas, é essencial dizer não à resignação e
acreditar que somos nós, cada um com o seu instrumento, os actores da
mudança.

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