A vida de um gay

Volto a frisar uma ideia muito simples mas central para aprovação de algumas medidas: Um dos objectivos da acção política é trabalhar para a felicidade das pessoas. Para cada um de nós, imbuído de convicções próprias e diferentes formas de viver a vida, a meta é ser feliz e cabe ao Estado criar as condições para que tal aconteça. Num estudo elaborado pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, em 2008, 58,8% dos inquiridos considera que a relação entre dois homens é algo totalmente errado, e 53,8% considera o mesmo no caso de se tratar de duas mulheres. Quando questionados sobre a sua orientação sexual, 87,7% dos inquiridos assumiu-se heterossexual, 1,5% bissexual e 0,7% homossexual. Perante este valor é plausível dizer que metade da população portuguesa assume claramente uma atitude discriminatória em relação aos homossexuais. O que está em causa não é a perspectiva numérica do fenómeno mas sim permitir que os casais homossexuais passem a ser vistos como tal e a usufruírem dos mesmos direitos. O PS foi o partido que ganhou as eleições e, por isso, a Assembleia da República (com o apoio dos restantes partidos de esquerda) tem toda a legitimidade para aprovar o casamento gay e passar isso para o referendo, como alguns querem fazer é, adiar a resolução de um problema que discrimina de forma violenta uma parte da população portuguesa. A minha premissa para a defesa do casamento homossexual é que, se existe um grupo de pessoas que entende que a sua felicidade está ao lado de uma pessoa do mesmo sexo, o Estado tem a obrigação de criar as condições legais para que isso aconteça. Não se trata de gostos pessoais ou sequer de moralismo individual mas sim de colectivamente assumirmos que as pessoas devem ter os mesmos direitos, independentemente das duas preferências, gostos ou aparência. O que está verdadeiramente em causa é a construção de uma sociedade verdadeiramente igualitária nas oportunidades e não de uma sociedade que na teoria diz uma coisa e na prática assume formas de exclusão e de discriminação que, nos tempos que correm, não fazem sentido. Por isso, permitir o casamento homossexual e a adopção é dar um sinal claro de combate à homofobia mas será, sobretudo, uma excelente mensagem para os portugueses no sentido de que as leis não podem e nem devem ser o reflexo e a perpetuação de preconceitos. É caso para dizer que a vida de um gay em Portugal é complicada e o leitor pode dizer que há países bem piores. Seguramente que sim. Mas Portugal não pode querer ser o espelho da modernidade e continuar a conviver de forma hipócrita com as discriminações.

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