O espelho é, hoje, uma banalidade, igual a tantas outras coisas e que é elegível no grupo restrito de criações fantásticas do homem. Não sabemos exactamente em que circunstância e quando é que foi inventado, mas o seu surgimento veio revolucionar os nossos hábitos e a forma como nos relacionamos. Antes do espelho, os nossos semelhantes tinham por hábito observar as suas imagens reflectidas na superfície de rios e lagos. Consideravam isso como uma obra divina, uma magia da natureza. Brincando com a situação, diria que quem lucrava com a inexistência de espelhos eram os feios, cuja confiança não era abalada já que não tinham a noção da sua própria aparência. Vivemos períodos terrivelmente conturbados, cuja dimensão é de difícil previsão. Pergunto, a partir de um espelho gigante fixado a frente da nossa sociedade, qual seria a imagem que nela reflectia? De alguém que está a acusar cansaço da idade, da ausência da esperança que é possível ainda mudar? De uma pessoa que veste a sua melhor roupa, calça os seus melhore sapatos para ter uma imagem dela própria, mas que por detrás disso está repleta de feridas não cicatrizadas? De alguém que acha que uns são mais iguais que outros?
Julgo que a imagem que teremos dessa nossa sociedade não será, infelizmente, muito longe disso.
1. Há duas semanas, três jovens italianos ataram fogo a uma pessoa que, por acaso, era um imigrante indiano. Puseram fogo ao homem enquanto ele dormia numa estação de comboio. Quase toda a imprensa deu conta desta violência sob o chapéu de xenofobia Depois de detidos, os suspeitos da agressão confessaram que andaram nos copos e a consumir drogas e queriam experimentar algo novo e que não foram motivados por nenhuma perspectiva xenófoba. Depois desta confissão, fiquei com a sensação de que a imprensa não ficou excitada ao saber que não foi por motivo xenófobo que o homem foi queimado com gasolina por três jovens. Para além dessa perda de excitação, ficou-se com a estúpida sensação de que “ Ok, afinal não lhe puseram fogo por ser imigrante”.
If you can't fly then run, if you can't run then walk, if you can't walk then crawl, but whatever you do you have to keep moving forward.” Martin Luther King
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
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