Se o Obama fosse africano

A vitória do Obama tem permitido muitas discussões. Enquanto os Estados Unidos estão a se preparar para uma nova fase, tem existido um pouco por toda a Europa, um tipo da auto-reflexão sobre os preconceitos raciais e a (não) forma de integração de minorias na sociedade europeia. Muitos de nós se esgravatam se poderia existir um Obama francês, inglês, alemão, italiano ou português e perante o quadro actual a resposta é para já não. Culpa do sistema? Atraso da democracia europeia? Existência de discriminação institucional? Fraca pro-actividade e qualidade da população imigrante? Todas essas hipóteses são válidas no sentido de nos ajudarem a compreender a preocupante exclusão das minorias na vida política europeia e, em particular, a portuguesa. De qualquer modo, a vitória do Obama constitui uma gigantesca provocação à sociedade europeia e na forma como lida e vê o suposto outro.
Se é legitimo questionarmos se poderemos ter um Obama em qualquer país europeu, será um exercício estimulante e, até certo, constrangedor na sua conclusão, se perguntarmos … e se o Obama fosse africano? O título não me pertence. No outro dia, um amigo enviou-me um artigo do Mia Couto exactamente com este título, em que ele, à semelhança com que tinha feito um escritor camaronês, elabora um conjunto de interrogações sobre a possibilidade para a existência de um Obama africano.
O artigo é fantástico e não resisti partilhar com o leitor algumas dessas perguntas, e até porque foram muitos os líderes africanos que, na noite da vitória do Obama o apelidaram de “ irmão”, cuja única semelhança será, porventura, a tonalidade da cor da pele. Mais nada e qualquer outra semelhança é a mais pura coincidência.
A primeira pergunta seria: e se o Obama se candidatasse a uma presidência de um país africano? Com as escassas excepções, seria muito difícil a chegada dela ao poder se, atendermos a média de permanência dos políticos africanos no poder. Sem contabilizar os anos que o Mubague está no poder, temos o José Eduardo dos Santos ( Angola) que está no poder há 28 anos, Omar Bongo ( Gabão) mais de 40 anos, Teodoro Obiang Nguema ( Guiné Equatorial ) quase 30 anos. Eis alguns nomes de um grupo considerável de Presidentes africanos que estão no poder há mais de 20 anos. Para além da existência desses senhores no poder, no caso de aparecer uma candidatura consistente, o presidente que está no poder tentava arranjar um esquema (provavelmente alterava a constituição) para se manter por mais alguns anos a enganar os seus concidadãos. Claro, sem abordar o sufoco que é ser a oposição em África onde a pluralidade de opinião e a possibilidade de expressa-la é ainda uma miragem.
Todos sabem que o Obama é descendente de imigrantes, pois o pai era um antigo estudante queniano nos Estados Unidos. Em alguns países africanos, alguém se lembraria de fazer uma lei que impossibilitaria que um filho de um imigrante pudesse chegar ao poder. Aliás, Mia Couto dá um exemplo do antigo presidente zambiano, Kenneth Kaunda, agora na oposição, em que os actuais dirigentes alegam que ele governou o país de forma “ilegal” porque descobriram que é filho de malawianos.
Mas, também, o Obama seria tido, por alguns, como não suficientemente africano, já que a mãe era branca e, a meio do percurso, parte da elite política africana torturava-o com essa questão da “pureza africana”.
Imaginemos que, perante esses problemas todos o Obama conseguiria chegar ao poder e convidaria, em nome da estabilidade, o seu adversário do partido para ocupar um lugar de destaque no governo. Estou certo que o adversário, agora na equipa do Obama africano, estaria no dia seguinte a conversar com os militares e a desenhar um esquema para dar um golpe e, em última hipótese, assassinava o Obama africano.
Claro que esse quadro é generalista e não tem em atenção as excepções que, felizmente, existem no continente africano. De qualquer forma, é preciso esperança, esforço e espírito de auto-critica sobre a realidade dramática em que muitos países africanos vivem e para que um dia se possa celebrar de forma entusiasmada uma vitória de esperança no continente africano. É necessário criar condições para que os obamas africanos possam aparecer e vencer, também, em África.

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