Um dia histórico e apaixonante

Cresci a ouvir a celebre frase de Martin Luther King: “ Eu tenho um sonho de que um dia meus quatro filhos vivam em uma nação onde não sejam julgados pela cor de sua pele, mas pelo seu carácter”. Cresci ainda a ouvir os relatos horrorosos da África do Sul que, manteve o Apartheid até 1990, ou seja, há menos de 20 anos, a nossa civilização convivia com um regime em que a cor da pele determinava o percurso e constituía a base do julgamento social dos indivíduos. Há menos de 20 anos, havia, na África do Sul, por exemplo, casas de banho para pretos e para brancos. Ainda não há muitos anos, nos Estados Unidos (em 1955), uma senhora preta, de nome Rosa Parks, costureira de profissão, se recusou a levantar do assento no autocarro para dar lugar a um branco. Este acto levou a boicote em massa dos negros ao transporte público no Estado da Alabama, protesto que culminou, em 1964, com a entrada da Lei dos Direitos Civis, criminalizando a segregação racial nos Estados Unidos.
A eleição de Barack Obama tem muitos significados e um deles é que abre, definitivamente, uma nova página da História dos Estados Unidos e do Mundo. Esta eleição contrariou todas as probabilidades sociais, de um miúdo filho de um preto do Quénia e de uma branca dos Estados Unidos, conseguir chegar à Presidência da nação mais poderosa do mundo. Só mesmo nos EUA, cuja liderança mundial não se mede somente pelo pioneirismo e capacidade económica, mas, também, pela inovação e mudança social, como é o caso desta eleição. Na Europa, tenho as minhas dúvidas que isso pudesse acontecer, pelo menos, nos tempos mais próximos. Será que França, por exemplo, elegeria para Presidente, um descendente Marroquino ou a Alemanha um cidadão com raízes turcas? Será que Portugal elegeria um Presidente preto? Uma rápida visão pela Assembleia da República, e ficaríamos com pistas interessantes relativas a esta questão.A propósito, o açoriano José Ferreira Medeiros, tem uma opinião bastante esclarecedora.Aliás, BO no discurso de ontem, não deixou passar a questão do racismo e a capacidade de mudança nos EUA quando disse que: "Se há pessoas que ainda têm dúvidas de que a América é o lugar onde as coisas são possíveis, que ainda acreditam que os sonhos dos nossos fundadores ainda estão vivos, se ainda questionam o poder da nossa democracia, esta noite é a sua resposta. O mérito do Obama tem ainda, na minha opinião, uma outra base de explicação; Durante o percurso que o levou à Casa Branca não proferiu o discurso de vitimização, estratégia que era seguida por muitos potenciais candidatos negros. Aliás, na altura em que a candidatura do Obama começou a ganhar alguma consistência, era considerado pela comunidade negra dos Estados Unidos como demasiado branco e, simultaneamente, pela comunidade branca, como não suficientemente branco. A tentação do discurso de vitimização, com riscos reais de fazer o efeito de ricochete de discriminação, é muito grande, sendo que esta apaixonante vitória veio confirmar, no entanto, que não é por aí que as mudanças são concretizadas. Não é com um discurso de choramingas que se faz a mudança. Obama conseguiu fazer uma campanha em que o tema do branco/preto não foi determinante. Aliás, na convenção nacional do Partido Democrata, em 2004, declarou em discurso “Não há um EUA branco e outro negro, e sim os Estados Unidos da América”.
Na altura, muitos de nós, duvidamos não da capacidade do Obama chegar a vencer esta corrida, mas da capacidade do povo americano em ultrapassar a barreira do preconceito. A resposta foi dada, com uma corrida sem precedentes na História do Estados Unidos nos últimos cem anos e uma vitória de que não deixa ninguém indiferente. Uma outra leitura que poderá nos servir para a realidade nacional e regional é a apatia das pessoas em relação à participação política. Esta vitória tem essa dimensão, ou seja, quando as pessoas se revêem na mensagem a participação acontece. Agora é hora de trabalhar e concretizar a tal mudança. Ninguém está à espera que Barack Obama mude o mundo. Mas não podemos esquecer que quem faz as mudanças não são extraterrestres, são homens, somos nós.
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