É muito futebol

Portugal é um dos países, pelo menos na Europa, que mais fala de Futebol. Reparem que eu disse de futebol e não desporto. Para além dos canais e jornais temáticos que focam de forma absolutamente esgotante as tricas do mundo de futebol, temos ainda os canais generalistas que contribuem, de forma também incompreensível, para esta preponderância do futebol no debate nacional que faz parecer que o país não tem outras coisas com que se preocupar. A propósito da predominância do Futebol no quotidiano português, numa entrevista recente, o próprio Presidente do Futebol Clube de Porto, Pinto da Costa, admitiu que um dos problemas do futebol em Portugal é que se fala muito sobre a modalidade. Foi muito gratificante e reconfortante ouvir tal comentário, sobretudo, vindo de quem tem responsabilidades no sector. Saber se o jogador A irá jogar ou não ou que só irá entrar depois da 1ª parte e fazer um debate em todos os canais sobre o assunto é absolutamente irrelevante para o país.
Aliás, a intensidade e a importância que se atribuem ao Futebol em Portugal é umas das formas mais eficazes de alienação das pessoas com bem comum e os decisores políticos agradecem. Enquanto andamos entretidos com as histórias das carochinhas, são tomadas decisões estruturais para a vida colectiva que nos passam completamente ao lado. Estou à vontade para partilhar este exagero com que existe na sociedade portuguesa em torno de futebol, já que eu gosto da modalidade e vibro intensamente com as vitórias do Benfica que, infelizmente, não tem muitas.
O mais incrível disso tudo é que essa atenção exageradíssima deveria ter, pelo menos, consequências práticas na qualidade da modalidade e, sobretudo, na excelência organizativa e de gestão dos próprios clubes. Fomos confrontados nos últimos dias com a notícia de que mais do 40% dos clubes da I e II Divisão não cumprem em tempo útil com as suas obrigações salariais. Por outras palavras, não pagam aos seus profissionais. Não se compreende, pois, como é que, num país de que se fala tanto de futebol, prevalece uma completa e caótica anarquia no meio. Seria interessante, também aqui na Região, apurar a real situação do cumprimento dos clubes para com os seus profissionais e perceber se temos ou não um prolongamento da desorganização que existe no continente. Reparem uma coisa óbvia: O Benfica, Sporting e Porto são casos à parte e o campeonato não se faz só com eles. E os outros clubes? Não podemos esquecer que temos por esse Portugal fora centenas de profissionais de futebol que têm a suas responsabilidades como qualquer outra pessoa e chega ao final do mês ficam a ver navios, num país que fala muito de futebol.

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