A propósito do discurso anti-imigração do PNR



Eu acho que a maior estupidez é, em muitas circunstâncias, ignorar os estúpidos.

Em relação a campanha contra os imigrantes do PNR e antes de fazer as considerações mais sérias devo dizer que:
1- o outdoor deveria estar num lugar mais central de lisboa ( tipo martin moniz)
2- no lugar do avião colocaria um barco. Seria sempre uma solução menos dispendiosa,
3- O boss do PNR já foi emigrante ( não consegui descobrir em que país)

Bom...acho que um sinal positivo era proibir que tal campanha tivesse continuidade. Viola o artigo 240 do código penal que diz " a)Fundar ou constituir organização ou desenvolver actividades de propaganda organizada que incitem à discriminação, ao ódio ou à violência raciais ou religiosas, ou que a encorajem
b)Participar na organização ou nas actividades referidas na alínea anterior ou lhes prestar
assistência, incluindo o seu financiamento;
é punido com pena de prisão de 1 a 8 anos.
Mais a sério...


Acho que a primeira coisa a fazer é não ignorarmos essas acções, por mais estúpidas e marginais que possam parecer. Devemos, com factos e argumentos, desconstruir essas manifestações xenófobas e não ignorá-los por serem marginais. De facto, o PNR não tem quase expressão nenhuma e, nas últimas eleições, obteve 0,1% dos votos expressos. Por outro lado, acredito que essas reacções xenófobas não fazem parte do sentimento do povo português e constituem sentimentos minoritários na sociedade portuguesa. Mas, é preciso dizer também, o grande perigo desse tipo de discurso é que pode ser facilmente absorvido pelas pessoas num quadro de tensão ou de alguma crise económica. Daí, a necessidade de sermos enérgicos na sua condenação e ainda mais firmes na vontade de construirmos um Portugal mais moderno, democrático e que respeita as pessoas.

Essas ideias de “Portugal para Portugueses” ou “França para os Franceses” não são novas e têm, infelizmente, emergido de forma silenciosa em muitos países e, como o discurso é incómodo para todos os que acreditam numa sociedade alicerçada na diversidade, preferimos não falar sobre o mesmo. Em França, a Frente Nacional teve nas últimas eleições presidenciais de 2002, 16,9% dos votos. Mas há outros países europeus em que se verificou essa mesma tendência, nomeadamente na Áustria (Partido da Liberdade, de Joerg Haider) com 10% de votos, em Itália (Liga do Norte, de Umberto Bossi e Aliança Nacional, de Gianfranco Fini) com 16%, na Holanda (com a Lista de Pim Fortuyn) com 17% e ainda na Dinamarca (Partido Dinamarquês do Povo), 12%

Hoje, as sociedades são cada vez mais construídas na diversidade, fruto dos movimentos migratórios. Em Portugal, os cerca de 500 mil imigrantes que aqui vivem contribuem diariamente e ao lado dos nacionais para o desenvolvimento deste país, exercendo muitas actividades que os portugueses não querem fazer ou porque não têm disponibilidade em termos de mão-de-obra. Quem fala em Portugal fala em outros países, em que os portugueses também estão lá emigrados. Poderemos citar o exemplo de Luxemburgo em que os emigrantes portugueses representam cerca de 30% daquela população.
Por isso, esse tipo de discurso, para além de constituir um verdadeiro atentando numa sociedade democrática, constitui, também, um autêntico tiro nos próprios pés, face à própria realidade da sociedade portuguesa, que foi (e ainda é) construída sobre a emigração de portugueses para outros países.
O problema é, igualmente, ideológico e passa pela noção do “nós”. O que significa ser português? Na apresentação da campanha, o líder do PNR disse que defendia que a atribuição na nacionalidade só fosse possível a partir da 5.ª geração. Se fosse esse o critério muitas pessoas não seriam portuguesas e, muito provavelmente, o próprio líder do PNR (que já foi emigrante) não o seria, ou pelo menos, muitos dos seus militantes e simpatizantes.
Mas esse tipo de campanha constitui também uma forma organizada e inequívoca de incentivo ao ódio e à discriminação dos estrangeiros, facto que é punível à luz do artigo 240 do código penal. Por isso, o problema é, igualmente, jurídico.
Porém, julgo que a melhor forma de combater essas atitudes xenófobas é potenciar ainda com mais vigor a integração dos imigrantes na sociedade portuguesa, numa base de direitos e deveres e na construção de um discurso muito objectivo e pedagógico em torno da imigração.

Comentários

Bárbara disse…
A propósito do teu comentário…

A tua primeira frase diz tudo… não é só “a maior estupidez” é também, atrevo-me a acrescentar, o mais fácil.
Choca! Envergonha! Faz-nos sentir pena… mas dificilmente nos leva a reagir.
Porquê? Será que arrogantemente nos sentimos superiores a quem diz estas coisas? Ou, será que nos sentimos incapazes de “mudar o mundo”? É-nos indiferente? Ou já se está habituada? Não sei…sinceramente não sei!

Obrigada pela tua reacção! É um exemplo de como se deve e pode agir nestas situações.

Bom trabalho.
Continua
Bárbara
Paulo Mendes disse…
Concordo contigo. Temos de aproveitar esses momentos de estupidez e contraria-los com as coisas que nós acreditamos.

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